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RESILIÊNCIA DO INÍCIO AO FIM

“Eu no seu lugar conseguiria reunir a força de vontade para olhar adiante, atravessar dores e dificuldades e buscar competir por uma medalha olímpica ainda?”

Imagino que esta seja uma pergunta que passe no íntimo de qualquer espectador vendo o esforço dos atletas das Paralimpíadas nas arenas, quadras e pistas. Competindo estão atletas com próteses, cadeiras de rodas ou guias humanos.

Minha admiração pela resiliência destes esportistas é grande, pois testemunho a luta diária de muitos paraplégicos e portadores de deficiências contra as dores do membro fantasma, a dor crônica, ou a dor neuropática de uma lesão medular ou deficiência muscular.

Quando retornei do XXI Congresso Anual de Intervencionistas de Dor de Budapeste, viajei junto com a equipe paralímpica húngara.

foto dr charles oliveira e equipe paralimpica hungara

Dr. Charles Oliveira e membros da equipe paralímpica húngara na sua volta do congresso de Budapeste/2016.

Desde então, tive vontade de levar meus filhos aos jogos paralímpicos para que testemunhassem as dificuldades que esses atletas apresentam e o que fazem para superá-las. No dia 13/09 pude levá-los ao Rio e ficamos impressionados com a qualidade de jogo dos tenistas de cadeira de rodas.

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Nem todos os para-atletas são portadores de doenças de nascença. Entre os para-atletas da equipe brasileira no Rio 2016, 35% teve como sequela alguma limitação ou incapacitação devido a lesões traumáticas por acidente automobilístico.

Outros atletas foram vítimas de outros traumas como tiro ou acidentes de trabalho. Ainda tem atletas de alguns países que já participaram ou estiveram em guerras, e que sofreram as mutilações e traumas psicológicos produzidas pelas mesmas.

Jogos idealizados durante a Segunda Guerra Mundial

Foi do contexto militar da Segunda Guerra Mundial que os primeiros jogos para paraplégicos foram idealizados e criados em 1948, na Inglaterra, por um neurocirurgião alemão, Dr. Ludwig Guttmann, ele próprio refugiado de guerra.

Hoje ele é considerado o pai dos jogos paraolímpicos, pois criou os primeiros jogos para cadeirantes, baseado na sua visão de que o esporte serve como um método terapêutico e uma forma de resgate da auto-estima. O esporte era um dos caminhos.

Foi carinhosamente apelidado por seus pacientes e conhecidos como “Poppa” (papai). O nome Guttmann significa “bom homem” e um bom homem era esse pai da Paralimpíada.

“Poppa” chegou ao Hospital Stoke Mandeville na Inglaterra em 1943, convidado pelo governo britânico para estabelecer o Centro Nacional de Lesões na Coluna. Lá, múltiplos profissionais trabalhariam na reabilitação de soldados paraplégicos, feridos durante a guerra. Seu objetivo: restaurar a função dos soldados feridos e facilitar sua reintegração na sociedade.

Vídeo contando a história do Dr. Ludwig Guttmann em imagens:
https://www.youtube.com/watch?v=mK-xZ0sMAdM

Foi necessário uma mudança de paradigmas. Até sua chegada a maioria destes pacientes eram mantidos sedados na crença de que nada mais podia ser feito por eles exceto amenizar as dores e deixá-los confortáveis. Muitos sofriam atrozmente, não somente por causa das suas lesões, como também pelas complicações e inatividade, inclusive de escaras por serem deixados em uma só posição por tempo prolongado. Também, cuidadores eram escassos, pois eram destacados para enfermarias onde “precisavam mais deles”.

Pai da Medicina Intervencionista da Dor implementa novas práticas durante a mesma guerra

Aqui pauso para traçar um paralelo com a medicina intervencionista da dor, pois, foi nesta mesma época da II Guerra Mundial que o médico considerado pai da medicina da dor, Dr. John Bonica, começou a desenvolver e utilizar mais os bloqueios de dor no manejo das dores dos feridos da guerra, e a adotar uma abordagem multidisciplinar. Seu objetivo, como o do Dr. Guttmann, a reintegração às suas vidas de civil.

Logo que a segunda guerra mundial termina, Dr. Bonica foi convidado pela Universidade de Washington, em Tacoma, EUA, para dirigir um centro de tratamento de dor onde tratamentos intervencionistas como bloqueios de dor e farmacoterapia eram empregados. Equipes multidisciplinares de anestesiologistas, ortopedistas, neurologistas, psicólogos, psiquiatras e outros profissionais médicos atuavam juntos no controle da dor.

msd-dr-john-bonica3Dr. Bonica não era um estranho à dor, pois, como arrimo de família, durante seus dias como estudante de medicina, lutava boxe para cuidar da família e pagar os estudos. A vida toda ele lutaria contra a dor crônica causada por suas lesões esportivas. Curiosamente seu nome é um diminutivo de “bom”.

Vida e trabalho do Dr. John Bonica, pai da Medicina Intervencionista da Dor. Clique aqui

A resiliência pessoal desses dois “pais” é um fator comum e vemos que inspirados por suas próprias lutas, empatizam com os soldados feridos e mantêm como objetivo a restauração de função e a reintegração à sociedade. Ambos o Hospital Stoke Mandeville e o Centro de Dor da Universidade de Washington continuam centros de referência em tratamento hoje.

Nascem os jogos

Retomando a história dos jogos, Dr. Guttmann, vendo os jovens paraplégicos entregues ao cigarro, ócio e inatividade, recomendou a prática esportiva como parte do tratamento no centro. Ele acreditou que se, através do esporte, restaurasse a atividade mental e física a esses pacientes, e no processo incutisse o auto-respeito, a auto-disciplina, o espírito competitivo e a camaradagem, incentivaria uma atitude mental restauradora e essencial para a reintegração à sociedade.

Com base nisso, teve a ideia de criar um evento esportivo exclusivamente voltado aos deficientes físicos sob seus cuidados: os Jogos de Stoke Mandeville. Para ele a prática do esporte não poderia ser exclusividade das pessoas de físico normal, também podia incluir paraplégicos. Chamou um sargento do exército para treinar os cadeirantes do centro. Os primeiros jogos foram o tiro a arco, arremesso de dardo e hóquei, e a primeira edição dos Jogos de Stoke Mandeville aconteceu em 28 de julho, 1948, o mesmo dia do início dos Jogos Olímpicos de Londres. Nesse dia 16 pacientes em reabilitação participaram e o esporte era tiro a arco. Os jogos seriam uma realização anual desde então.

De início, a competição era aberta apenas a competidores britânicos, mas, a partir de 1952, o evento passou a receber atletas de outros países. Também era apenas para paraplégicos, e somente mais tarde abrangeria outros tipos de deficiências.

A ideia dos jogos deu certo. A primeira mulher britânica medalhista de ouro em tiro a arco nos primeiros jogos paralímpicas, Margaret Maughan recorda, “Havia um espírito coletivo. Todos fazíamos novos amigos e havia grande camaradagem. Apoiávamos um ao outro”.

https://www.youtube.com/watch?v=tlermfBgHQY

Em 1960, vieram os primeiros jogos Paraolímpicos internacionais em Roma, Itália, também sede olímpica naquele ano. Foram 400 atletas de 23 países. A partir desse ano, o evento passou a ser a cada quatro anos e ficou conhecido como a Primeira Paraolimpíada.

Devido ao grande número de participantes, maior número de modalidades disputadas, e sua crescente relevância, os Jogos Paralímpicos Internacionais foram reconhecidos pelo Comitê Olímpico Internacional.

Este vídeo produzido pela Associação Americana Paraolímpica mostra um pouco da história da Paralimpíada.

Jogos Paralímpicos na atualidade

Hoje, setenta anos depois, são 23 modalidades, cerca de 4.350 competidores com deficiência, e 160 países participantes.

Hoje participam pessoas com diferentes graus de lesão medular, paralisia cerebral, prejuízo de pólio, nanismo, amputações ou outras limitações, pessoas com menos limitações, problemas visuais e que possuem deficiências intelectuais.

Para participar dos jogos, passam por testes de função e movimento com um profissional da medicina esportiva para receberem a classificação para disputar as provas.

Diante das polêmicas recentes com doping, vale esclarecer que um atleta que precisa tomar remédios para dor ou para algum tipo de tratamento, precisa entrar com um pedido de isenção. Cada pedido é analisado individualmente por um comitê médico. A isenção é dada com uma dosagem definida e por um período específico. O atleta precisa provar que não existe alternativa.

Quanto ao Dr. Guttman, em 1966, a Rainha da Inglaterra lhe conferiria o título “Sir” em reconhecimento do seu trabalho, que continuou a exercer até seu falecimento em 1980. Recomendo o excelente filme para TV, The Best of Men (2012), que conta a vida do Sir Ludwig “Poppa” Guttmann e os Jogos Paralímpicos (pode ser achado no Netflix)

Que o ser humano continue a reconhecer o valor social e humano da prática do esporte e que possamos nos inspirar com as histórias dos “pais”, dos “bons” homens, como Bonica e Guttmann que tiveram coragem de mudar paradigmas, que mesmo diante do mais alto sofrimento foram resilientes e tiveram sucesso em realizar o que idealizaram.

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Eu e minha família chegando nos Jogos Paralímpicos Rio 2016.

Clarinha e Jane experimentaram jogar de cadeira de rodas. Nada fácil!
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