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Milhões de pacientes com câncer avançado ficam sem tratamento de dor

Continuando com o tema dor do câncer, hoje abordaremos o tema do sofrimento desnecessário da dor em estágios avançados por subutilização da morfina com o objetivo de fornecer informações e conscientizar pacientes e suas famílias dos seus direitos.

Na Declaração Mundial Contra o Câncer, resultado de um movimento da União Internacional para o Controle do Câncer (UICC), Meta No. 8 declara que, até 2020, medidas efetivas de controle da dor estarão disponibilizadas universalmente para todos os pacientes de câncer com dor.

Ainda tem milhões de pacientes oncológicos em fase final da vida ficando sem tratamento da dor quando poderiam ter algum alívio com a administração de morfina.

O problema se mostra ainda maior nos países em desenvolvimento e há um movimento crescente em prol da conscientização dos governos, entidades, ministros de saúde, agências regulatórias e outros sobre a necessidade de tratamento de dor para que esses pacientes tenham alívio para sua dor e, quando chegar o tempo, uma morte digna.

Em 03 de dezembro, PRI – Public Radio International, lançou uma série com uma semana de duração chamada “O novo campo de batalha contra o câncer: o mundo em desenvolvimento”. A série aborda os desafios enfrentados pelos países em desenvolvimento na luta contra o câncer.

Para pacientes e profissionais, alguns dos desafios mencionados aqui podem até soar familiar no contexto brasileiro.

A morfina é barato, eficaz e fácil de administrar – então por que milhões de pessoas ao redor do mundo estão morrendo sem controle de dor, sem acesso à droga? Esta pergunta é levantada pela a jornalista principal da série, Joanne Silberner, em artigo publicado na BBC News Magazine, citando dados da GAPRI (Iniciativa de Acesso Global ao Alívio da Dor) – ONG que defende o aumento do acesso global à morfina e que representa o programa conjunto da União Internacional para o Controle do Câncer (UICC) e a Sociedade Americana do Câncer (ACS).

Má gestão do sistema de distribuição

Em seguida, ela exemplifica um dos desafios do tratamento da dor do câncer com o caso de uma idosa em um país da África (Uganda), que, em estágio metastático do câncer, tinha tido acesso à morfina por um tempo, mas, quando o estoque do hospital acabou, não tinha outra opção a não ser sofrer as dores, até chegar o lote fornecido pelo governo do país.

O desafio? A má gestão da cadeia de fornecimento responsável pela interrupção na entrega da medicação, uma vez que o governo ugandense produz e distribui sua própria morfina para uso gratuito nos hospitais do país.

De acordo com Silberner, é sabido que, de muitas maneiras, a morfina é um fármaco excelente para uso em países em desenvolvimento. É barato, eficaz e fácil de administrar via oral. No entanto, a jornalista cita dados da OMS que reportam que, todo ano, mais de 5 milhões de pessoas com câncer morrem sem tratamento da dor, sem acesso à morfina.

Baixíssimo acesso à morfina nos países de menor renda

A presidente da GAPRI, Dr. Meg O’Brien, epidemiologista que assumiu o cargo com o compromisso de cumprir a missão da entidade da promoção do acesso universal ao alívio da dor, diz que em países de alta renda como o Reino Unido e os Estados Unidos, tem morfina o suficiente para tratar 100% das pessoas sofrendo com dor – mas em países de baixa renda, este número é somente 8%.

Regulamentação rigorosa por medo da droga ser desviada para produzir heroína cria barreiras ao acesso

A chefe da organização relata que em muitos países de renda baixa e média – 150, na contagem de alguns – é quase impossível conseguir morfina. Alguns governos não a fornecem, ou tem regulamentos rigorosos para licenciamento do seu uso, muitas vezes devido à preocupação dela ser desviado para produzir heroína.

Medo do paciente ficar viciado

Ela ainda afirma que muitos médicos relutam em prescrever morfina, com medo dos pacientes ficarem viciados – algo que estudos já demonstraram ser uma ocorrência rara.

Burocracia no licenciamento

O’Brien disse que mesmo em países como a Índia onde não há barreiras ao uso da morfina, e onde nunca há falta da droga, ainda existem desafios para conseguir o medicamento, dependendo da parte do país em que você se encontra. Muitos médicos no norte da Índia relutam enfrentar a burocracia para conseguir o licenciamento para estocar a droga e estima-se que somente 1 a 2% da população nesta região tem acesso à morfina.

Mapa do Uso da Morfina no Mundo

Fonte: GAPRI 2008-2010

Na Índia, há um centro famoso, o CIPLA Palliative Care Centre que oferece cuidados sem custo para pacientes com câncer. A empresa de remédios genéricos CIPLA custeia todas as despesas e fornece a morfina para os internados. Contudo, tem ocupação de somente 60% dos leitos.

Pensamento popular – quem começa a usar morfina está próximo ao óbito

A diretora do centro, Priya Kulkarni, cita uma grande preocupação dos próprios pacientes com relação ao uso da morfina. Pensam que a morfina é sinônima de morte, e relutam em aceitar quando os médicos sugerem seu uso. Devido a estas preocupações, muitos oncologistas locais não querem mandar seus pacientes para o hospital.

“Não querem desistir quando se trata de dar-lhes alguma esperança,” diz ela. “E quando digo algo como, ‘vou te enviar para um paliativista,’ indiretamente é como dizer,  ‘não há nada mais que possamos fazer por você.’

Consumo do medicamento aumentou em 10%

Em países de baixa renda o consumo de morfina já aumentou dez vezes desde 1995, de acordo com o Comitê Internacional de Controle de Narcóticos (INCB). E em muitos países onde alguns anos atrás sequer tinham morfina, hoje eles têm, mesmo que o fornecimento não seja ininterrupto.

No Brasil, mais comum em hospitais

No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) dispõe de estrutura de excelência em cuidados paliativos para pacientes oncológicos e seus familiares, incluindo atendimento ambulatorial, hospitalização e internação domiciliar. Contudo, para o conjunto do país, a oferta de tratamento paliativo é pequena e fragmentada, a grande maioria localizada em hospitais. [1]

Informações adicionais

Morfina:

  • vem da papoula
  • descoberto em 1804
  • vendida pela primeira vez como analgésico em 1817
  • recomendada pela OMS em certos casos e condições (escada de dor)

Leia na íntegra: Declaração Mundial Contra o Câncer (inglês) /Versão português

Atualizado em 08/05/2017

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