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Dores mais comuns em diferentes idades

Dizem que quando a idade chega, chegam as dores também. Mas a verdade não é bem esta. Ela está presente em todas as faixas etárias: do nascer ao envelhecer. Inclusive, pesquisas mostram que desde entre a 22ª e 24ª semana de vida intrauterina, o feto já percebe dor!

Em um passado não muito distante acreditava-se que crianças não tinham um sistema nervoso amadurecido para perceber as dores, mas essa teoria caiu por terra. As crianças sentem dores sim, desde que nascem. No entanto, como são muito pequenas não conseguem expressar o que sentem.

Por isso nas idades mais tenras, devemos estar atentos ao seu comportamento: se estão mais retraídas, com menor movimentação corporal, com expressão facial de dor, com falta de apetite, com dificuldade de dormir. Já quando observamos os sinais vitais, devemos reparar se há aumento de frequência respiratória, pressão arterial e  freqüência cardíaca, frutos dessa dor.

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Isto muda a partir dos cinco anos ou mais, quando a criança  já consegue se manifestar de forma mais clara.

Do ponto de vista médico, seria simplista resumirmos as patologias mais comuns das diferentes idades. Mesmo assim, achamos interessante citar algumas.

Vamos iniciar pelas bebês. Logo que nascem e começam a manifestar dores intestinais, todas as mães imaginam que sejam cólicas. E deve ser mesmo. Porém, o/a pediatra é a pessoa certa para afirmar isto. Ele consegue em seu exame físico afastar patologias como má rotação intestinal, intolerância ao leite, dentre outros diagnósticos diferenciais.

Depois vem a fase da aparição da primeira e segunda dentição e novas dores! Ao ficarem mais independentes e com brincadeiras que façam uso do físico em excesso, podemos estar diante de um quadro de dor muscular, ou no jargão médico, “dor miofascial”. Veja bem, não estamos desencorajando os pais de estimular os filhos a praticar atividade física…pelo contrário!

Hoje, com a incidência de violência urbana alta, principalmente nos grandes centros, vemos que falta aptidão física às crianças, já que ficam mais reclusas em casa, passando a maior parte do tempo livre diante de computadores e tablets.

Na fase do estirão – e atenção à faixa etária dos 4 aos 12 anos – dores noturnas nas pernas nos faz lembrar as dores do crescimento. Além disso, ainda tem pré-disposição genética por etnia, por exemplo, é possível crianças com pele morena ou negra ter uma alteração genética de suas hemácias, patologia conhecida como anemia falciforme. Em períodos em que há uma infecção no organismo destas crianças, por exemplo, uma pneumonia, essas hemácias alteradas poderão obstruir vasos sanguíneos, particularmente junto aos ossos, e causar dor isquêmica.

Abordamos agora as dores do adolescente. Uma queixa frequente nesta faixa etária são dores de cabeça. Estudos mostram que filhos de pais em que ambos progenitores  têm história patológica pregressa de cefaleia possuem 60% de chance de terem também. Primeiramente, o médico precisa investigar diante de que tipo de cefaleia está. Por sorte, raras são as vezes em que o fator causal é um tumor cerebral ou aneurisma. Se a frequência das dores não é alta, tratamos as crises. Quando frequentes (12 a 15 dias no mês), devemos instituir uso de medicamentos de uso regular para diminuir esta frequência e a prescrição de outros para quando as crises de dor de cabeça acontecerem.

A coluna vertebral é outro ponto importante que precisamos ressaltar. Separando cada duas vértebras, existe um disco intervertebral. Estes discos tem duas funções: permitir mobilidade da coluna e ser um amortecedor de impacto. Estudos com jovens de 16 anos, mostraram que 15% deles já apresentavam algum grau de degeneração discal. É seguro dizer que, dos órgãos do corpo humano, é o que mais precocemente envelhece.

Tal degeneração pode gerar uma dor habitualmente na região lombar, mais frequente no período da manhã, que irradia para as pernas, piora ao retornar a coluna para posição ereta quando se encontra fletido. E aqui dissemos lombar por ser a região onde a dor é mais frequente, embora possa acometer também as colunas: cervical e torácica.

Os adultos podem sofrer de diversos tipos de dores, sendo as mais comuns as dores de coluna e musculoesquelética, fruto do estilo de vida e postura inadequada. As dores lombares são as mais comuns, podendo ter sua origem nos discos intervertebrais (dor discogênica), nas articulações da coluna (dor facetária), na musculatura profunda da região lombar ou da articulação sacroilíaca.

Nesta faixa etária podem surgir também dores neuropáticas, causadas por uma disfunção no sistema de percepção da dor (ex: polineuropatia diabética ou alcoólica). Dores reumatológicas e dores relacionadas a tumores devem sempre ser lembradas. A fibromialgia, um quadro de dores musculares generalizadas, tem uma prevalência de até 5% em adultos, ocorrendo principalmente em mulheres.

Nos idosos, sem sombra de dúvida, a causa mais frequente de dor são os processos degenerativos naturais da idade, a chamada osteoartrose. Os locais mais comuns de dor são os quadris e joelhos, embora ombros, tornozelos e outras articulações possam ser acometidas. A artrose também pode afetar a coluna lombar, causando dores principalmente ao levantar da cama pela manhã.

Outras afecções que costumam causar dor nos pacientes mais idosos são a neuralgia pós-herpética, que consiste em um tipo de dor cutânea (na pele) que ocorre após a reativação do vírus da catapora que ficou latente no organismo desde a infância. Nessa faixa etária é importantíssimo afastar qualquer causa de dores relacionados ao câncer. Problemas circulatórios também podem estar associados.

Para finalizar, lembramos da frase de Carlos Drummond de Andrade: “A dor é inevitável. O sofrimento é opcional”.

Por mais difícil que seja enfrentar uma doença e algumas vezes com prognóstico reservado, hoje existem inúmeras estratégias para promover alívio da dor satisfatório, entre elas, um bom manejo de medicações e os procedimentos intervencionistas para o controle da dor.

Autores:

Charles Amaral de Oliveira 
Médico Intervencionista de Dor do Singular-Centro de Controle da Dor – www.singular.med.br
 
André Marques Mansano 
Fellow de Medicina Intervencionista de Dor no Singular-Centro de Controle da Dor
PhD em Anestesiologia

 

Bom fim de semana prolongado para todos!! E faço votos que no dia da Proclamação da República, os nossos políticos pelo menos parem um pouco no meio das comemorações cívicas para refletir sobre o que nosso povo brasileiro precisa para ter acesso a melhores cuidados à saúde.

Abraços!

 

 

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