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REALIDADE VIRTUAL IMERSIVA NO TRATAMENTO DA DOR CRÔNICA

Engana o cérebro, distrai da dor

A realidade virtual (RV) vem despontando como uma terapia não-invasiva, não-farmacológica, de muita promessa no tratamento da dor crônica, inclusive da dor fantasma em paraplégicos e amputados.

Hoje olharemos o desenvolvimento desta tecnologia no século XX, a RV imersiva no tratamento da dor crônica e alguns estudos que demonstraram o potencial desta tecnologia no tratamento da dor crônica.

Muitos já conhecem a tecnologia RV, especialmente na forma de vídeo-games, jogos interativos, animações, filmes, etc., produtos da indústria do entretenimento.

imagem sensorama 1962

Em 1962 surgiu o Sensorama, que permitia ao utilizador fazer um passeio de moto por Manhattan (Nova Iorque), com sons, vento, movimento e até cheiros!

Outra aplicação prática, desta vez na área militar, foi um simulador de voo, construído pela Força Aérea Americana para treinar seus pilotos nos anos 1980. Seis anos depois, a agência espacial NASA  apresentou um ambiente virtual que permitia a interatividade por meio de comandos de voz, escuta da fala sintetizada e do som 3D, visualização por capacete e interatividade mediante o uso de luvas.¹

Se você ainda não conhecia: a RV simula um ambiente realístico, dando a sensação da presença da pessoa em um mundo virtual onde ela consegue ver, tocar, ouvir e interagir com o ambiente e seus elementos, mesmo estando em um ambiente distante do virtual, o real.

tratamento para dor crônica

No ambiente virtual, a pessoa obtém e manipula cenas digitais usando acionadores (ex.: consoles, luvas de dados) e visores 3-D (ex.: capacetes, Óculus Rift ou óculos de LCD).

Segundo o professor Romero Tori, coordenador do Interlab – Laboratório de Tecnologias Interativas da Escola Politécnica da USP, em entrevista no dia 13/12/2017 na TV Brasil:

“É tecnologia capaz de enganar nossos sentidos por meio de um ambiente simulado.”

Os ambientes simulados são variados e incluem por exemplo, o mar, onde a pessoa poderá nadar com golfinhos e interagir com o ambiente de várias maneiras, ouvir o som do mar, das gaivotas, etc.,. Pode ser o campo, onde poderá se movimentar, passear, ouvir passarinhos, ver riachos, ou até sobrevoos aéreos em lugares exóticos ou selvagens, sem sair do leito.

 

Ambiente calmo, positivo e relaxante com interação multisensorial por um período de tempo distrai o paciente dos sinais da dor.

Parece divertido e relaxante, não é? Mas, como isso reduz a dor?

Para os cientistas cognitivos, no alívio da dor, a RV funciona pelo princípio da “Attention Distraction”, literalmente a distração da atenção. A realidade virtual desvia a atenção do foco original — a dor, para um ambiente calmo e positivo, onde, além de estar presente, a pessoa poderá interagir, às vezes até usando um membro ausente na vida real. A interação produz estímulos prazerosos e relaxantes, que passam a prender a atenção do/a utilizador/a.

RV Imersiva

realidade virtual imersiva é um estado em que a pessoa está totalmente envolvida num dado ambiente simulado, com todos seus sentidos concentrados nele. Quanto maior for a sensação do utilizador num determinado ambiente virtual, maior a realidade imersiva.

Um dos estudos importantes de RV na redução da dor, foi o projeto SnowWorld, “mundo da neve”, desenvolvido por Hunter Hoffman, um projeto de colaboração entre a Universidade de Washington e o Centro de Queimaduras Harborview, onde são tratados pacientes com queimaduras graves.

O fato do ambiente ser um cânion de neve, onde o participante faria ações como jogar bolas de neve, é para criar a sensação de “apagar” o fogo na hora da troca dos curativos e levar o foco para os movimentos e sensações do ambiente virtual.

A dor tem forte componente psicológico, os sinais de dor chegando ao cérebro podem ser interpretados como dor… ou não. Se estiver pensando em dor, o/a paciente interpretará como dor, mas, se estiver com a atenção em outro foco, os sinais da dor ficarão em segundo plano, sendo substituídos pelos pensamentos da realidade daquele foco.

Engana o cérebro

E é aí que entra o “enganar” do cérebro mencionado no início deste artigo. Ficar absorto dentro do ambiente gerado pelo computador requer toda a atenção do cérebro, distraindo o paciente do processamento dos sinais da dor!

Nos pacientes com queimaduras, a morfina era eficaz no alívio da dor das queimaduras, mas não surtia efeito na hora da troca dos curativos ou remoção de grampos e/ou outros cuidados. Em momentos assim nenhuma analgesia funcionava bem. Para Hoffman et al, a RV foi eficiente no alívio da dor porque tirou o foco do paciente da sua dor e da consciência da sua condição de doente, desviando-o para os sinais multisensoriais do ambiente simulado.

Desde esta publicação do caso dos queimados, já se passaram quinze anos e múltiplos estudos bem-sucedidos e replicáveis. Hoje a RV também é aplicada no tratamento de ansiedade, fobias e TEPT (Transtorno do Estresse Pós-Traumático), especialmente entre veteranos de guerra, no tratamento odontológico, no tratamento de demências e na educação médica. Outra aplicação sendo bastante pesquisada é o tratamento da dor fantasma em amputados ou paraplégicos.

Dor fantasma

É comum paraplégicos e amputados sentirem dor no coto, isto é, dor no lugar onde perderam o membro, pois o cérebro age como se ainda estivesse lá, e isso é chamada de dor fantasma. Nesse contexto da dor, o que se sabe é que o estímulo táctil sobrepõe o estímulo da dor. Se o/a paciente mergulha na RV e concentra na experiência virtual, distrai da sua realidade e isto reduz a dor.

Trabalhando na reabilitação de pacientes paraplégicos (após lesão medular), um grupo de cientistas da École Polytechnique Fédérale de Lausanne, Suiça, estudou o alívio da dor fantasma usando uma prótese das duas pernas e a RV. A ideia é, no ambiente virtual, reconectar o cérebro dos pacientes com a realidade do membro amputado, estimulando a movimentação. Isto relaxa e reduz a dor fantasma.

No vídeo, o pesquisador principal Olaf Blanke, relata o experimento.

No estudo, os pacientes colocaram óculos 3-D para assistir a uma filmagem da prótese das pernas. A câmera estava posicionado para imitar a visão que o paciente teria de suas próprias pernas e os óculos davam a impressão de que as pernas eram realmente do paciente. Uma pesquisadora então bateu levemente com varetas finas as pernas do paciente e a área da coluna acima da região da lesão medular. Os indivíduos relataram que sentiram como se as próprias pernas estivessem recebendo estas leves batidas e disseram que esta sensação ajudou a diminuir a percepção da dor neuropática. Dr. Blanke e sua equipe concluíram que o tratamento com RV foi eficaz.

Pesquisas e projetos de RV imersiva como descritas acima estão cada vez mais comuns e com resultados que mostram sua eficiência. Pode parecer futurista, mas esse futuro já chegou e mais estudos e investimentos são necessários para tornar estes tratamentos economicamente viáveis, pois os equipamentos, como os óculos 3-D, ainda são caros.

PODE GOSTAR DE LER:

História da RV e seu uso na medicina. Artigo (em português) dos pesquisadores, José WV De Faria, EG Figueiredo e MJ Teixeira do HC-USP

Referências

¹ De Faria JWV, Figueiredo EG, Teixeira MJ. Histórico da realidade
virtual e seu uso em medicina / History of virtual reality and its use
in medicine. Rev Med (São Paulo). 2014 jul.-set.;93(3):106-14.

² Li, A., Montaño, Z., Chen, V. J., & Gold, J. I. (2011). Virtual
reality and pain management: current trends and future directions. Pain Management, 1(2), 147–157. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3138477/]

³ https://www.huffingtonpost.com/entry/virtual-reality-could-help-
people-with-phantom-pain_us_5877cec4e4b0077dca25d99b

4 http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(16) 31598-7/fulltext

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