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Corticoide – é tudo igual?

Acabo de ler a Super Interessante de março de 2015. Incentivado por pacientes que citaram a reportagem, li o artigo “A dor que não passa nunca”. Para quem não leu, resumidamente, é um auto-relato da dor de uma paciente, que ao cair sentada três dias antes de sua formatura em medicina em 2010, fraturou o cóccix (último ossinho da coluna, próximo ao ânus) e que, na busca de um tratamento adequado, acabou com dores causadas pelos próprios tratamentos adotados.

A partir daí foi submetida a inúmeros procedimentos, desde ressecção do cóccix até implante de um eletrodo medular para um melhor controle da dor. O pior é que a expectativa dos melhores resultados não se concretizou e na reportagem acompanhamos a descrição do sofrimento dela, com dores 24 horas, 7 dias por semana, 365 dias no ano. Ao final, a autora cita que seu diagnóstico atual de aracnoidite adesiva, uma inflamação de uma membrana que envolve a medula espinhal, e por aderir à medula espinhal, provavelmente seja o motivador de suas dores.

Prometo escrever brevemente um post sobre esta condição; mas, neste momento gostaria de tecer dois comentários sobre o que foi escrito, com o único propósito de levar informações aos meus leitores, sem querer julgar, pois não conheço o caso nem a paciente.

Na reportagem, há uma referência que tudo piorou com o uso de corticoide (um anti-inflamatório) no espaço peridural, e que a partir desse momento, iniciou esse quadro de aracnoidite adesiva (uma inflamação de uma das membranas que envolve a medula espinhal). Isto é possível, principalmente quando injetado  inadvertidamente  no espaço subaracnoideo, porém esse fato tem uma ocorrência baixíssima e quando ocorre, não obrigatoriamente evolui para aracnoidite adesiva.

Aracnoidite adesiva

Agora, considere que a peridural com corticoide é o procedimento intervencionista mais realizado para o controle da dor no mundo. São milhares todos os dias. Hoje, à luz da ciência, o questionamento não é, usar corticoide ou não, e sim, qual o melhor corticoide a utilizar — particulado ou não particulado?

Isto me leva ao meu primeiro comentário: o paciente precisa estar ciente sobre os dois tipos de corticoide. Por exemplo, a metilprednisolona, corticoide particulado citado no procedimento submetido pela paciente da reportagem, possui partículas maiores que o diâmetro de pequenas artérias da coluna e, se injetado inadvertidamente nestas artérias, pode obstruí-las e causar consequências sérias. Em contrapartida, um corticoide não particulado como a dexametasona não apresenta tal risco de obstrução arterial, porém seu período de ação é menor e, portanto, tem menor eficácia. De uma forma geral, damos preferência para os corticoides particulados na coluna lombossacral e os não particulados nas demais.

Existem casos em que os benefícios sobrepõem os riscos. No ano passado, nós que trabalhamos no manejo da dor,  testemunhamos o surgimento de casos de Síndrome Dolorosa Complexo Regional (SDCR) supostamente iniciados após a campanha de vacinação do HPV. Segundo os epidemiologistas, o benefício da vacinação em massa, com a possível diminuição na incidência do câncer de colo de útero, sobrepõe os riscos de alguns casos (trágicos por sinal!) da SDCR.

Quero dizer que as peridurais com corticoide, em mãos experientes e realizados sob visualização do intensificador de imagens, são procedimentos muito seguros mas não isentos de riscos, como em qualquer outro procedimento médico.

Meu outro comentário é que segundo a reportagem, a paciente preferiu não ser acompanhada por um psicólogo. Como muitas vezes já apontamos aqui no blog, dores crônicas levam ao sofrimento e uma expansão na intensidade da dor. Portanto, um acompanhamento psicológico com profissional experiente é fundamental para um melhor controle da dor, associado é claro, ao atendimento de outros profissionais que compõem a equipe multidisciplinar.

 

Link para artigo referido no post:  “A dor que não passa nunca” – Revista Super Interessante”

8 Responses

  • Lito
    out 17, 2015

    Dr. Charles, há 2 anos sinto uma dor insuportável na região do sacro e cóccix e já fiz várias ressonâncias, tomografia, eletroneuromiografia e cintilografia e nada foi detectado. Então fiz denervação por radiofrequência das sacroilíacas e bloqueio dos nervos pudendos e a dor continuou. Gostaria de saber se existe algum procedimento que possa ser feito na região que sinto essa dor (sacro e cóccix), pois nunca encontrei um especialista que propusesse investigar essa região. Parece que essa região nem existe, pois só querem intervir nas articulações sacroilíacas ou na coluna lombar (L1 a L5). Sinto essa dor na região sacrococcígea que não me permite sentar e os sintomas irradiam para os glúteos e períneo, dando parestesia, queimação, o que relacionaria com os nervos sacrais. Então eu pergunto doutor, existe exames e tratamentos para essa dor localizada na região citada?

    Lito out 17, 2015
    • Dani Moura
      out 26, 2015

      como pode nao existir nada que se interesse por isto quebrei o coccix e 4 meses parei de malhar … um saco

      Dani Moura out 26, 2015
    • Lito
      out 29, 2015

      Dani, no seu caso, após quebrar o cóccix quais as consequências vc teve? Ficou com dormência e queimação na área ou apenas dor? E qual o especialista vc procurou e qual o tratamento vc está fazendo?

      Lito out 29, 2015
    • Dani Moura
      out 29, 2015

      quando sento e vou levantar sinto um espasmo no gluteo. confirmou a fratura agora estou procurando um osteopata para fazr acumpultura e osteopatia.

      Dani Moura out 29, 2015
    • Dani Moura
      out 29, 2015

      entre em contato danimouralves@hotmail.com

      Dani Moura out 29, 2015
  • Bia Amorim
    mar 29, 2015

    Olá Dr Charles essa reportagem me deixou assustada! Pois meu diagnostico é de Fibromialgia, porém, fiz duas cirurgias com artrose na coluna lombar há 10 anos! Sem contar que 3 cesáreas com anestesia rack, sendo que na segunda teve um erro quando aplicada pois perdi os sentidos depois disso que começaram minhas dores. Então lhe perguntou será que sofro dessa mesma patologia “aracnoidite adesiva” visto que tbm sinto essa dor que não passa nunca e sempre tratada como sendo Fibromialgia. Por favor me responda, grata Bia Amorim

    Bia Amorim mar 29, 2015
    • mundosemdor
      abr 16, 2015

      Olá Bia. As dores da fibromialgia variam muito de lugar e intensidade. Já a dor da aracnoidite adesiva é mais constante respeitando sempre a mesma região sem migrar dos membros inferiores para os superiores, o que ocorre rotineiramente na fibromialgia. Porém Bia, nada impede uma pessoa ter mais de um fator causal para as dores.

      mundosemdor abr 16, 2015
    • jun 17, 2015

      Precisaríamos examiná-la Bia.

      Dr Charles Oliveira jun 17, 2015

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