DOR CRÔNICA: QUEBRANDO O CICLO DA INSÔNIA CRÔNICA – Parte 1

2 out

DOR CRÔNICA: QUEBRANDO O CICLO DA INSÔNIA CRÔNICA – Parte 1

A insônia crônica, não se resolve sozinho. Requer diagnóstico clínico e tratamento. Um desafio da saúde pública, pois a insônia pode assolar o indivíduo a vida inteira com grande impacto físico e psicossocial, ela precisa ser levado a sério para quebrar o ciclo vicioso que costuma se instalar quando a pessoa não dorme. E a dor crônica pode ser uma razão ou uma consequência da insônia.

A insônia inclui: dificuldades em adormecer ou de permanecer adormecido, despertar noturno ou precoce (mais cedo que o desejado), entre outras.

Em termos de números, quase 70% das pessoas com dor crônica relatam que devido à dor, despertam durante a noite ou cedo demais ou ambos. Insuficiente em quantidade e qualidade, o sono se torna não reparador e tem grande chance no dia seguinte que o insone sinta cansaço, fadiga, dores de cabeça, ou tenha falta de concentração ou atenção, mudanças de humor e outras indisposições. Ou seja, impacta também o funcionamento social e ocupinsonia cronicaacional do indivíduo.

É um fator de risco para a ocorrência de colisões de automóvel, acidentes de trabalho, perda de emprego, para o surgimento de problemas sociais e maritais e para a redução na saúde global e na qualidade de vida.

E a história não pára aí. A procura de uma solução rápida, mais vezes que nunca, a pessoa recorre a soníferos ou anti-ansiolíticos para conseguir dormir. Pode até praticar uma boa higiene do sono; mesmo assim, o quadro não muda e a insônia assombra… noite após noite. Acaba gerando uma reação de ansiedade com a aproximação da hora de dormir.

Diagnóstico e classificação

Pelos parâmetros correntes, antes de adotar uma modalidade ou combinação de modalidades de tratamento, o primeiro passo é fazer o diagnóstico clínico através de história do sono e detalhada história médica, psiquiátrica e do uso de substâncias.

Uma vez diagnosticada, ela é classificada como primária (aguda) ou secundária (comórbida). A insônia primária geralmente tem uma causa identificável não ligado a um transtorno e a secundária pode estar associada a ou ter como causa uma condição médica ou transtorno psicológico. Por isso, no diagnóstico da insônia secundária, é necessário uma investigação clínica mais sistematizada.

Vale observar que a maior parte dos pacientes com dor crônica já passaram da insônia transitória para a insônia secundária ou comórbida. Provavelmente, seu médico, durante a investigação da sua insônia, levantará que o paciente já tem na sua história a insônia primária. É importante que as condições clínicas e/ou psiquiátricas associadas à insônia sejam identificadas e tratadas.

Insônia Primária

No caso da insônia primária, os objetivos do médico devem ser: manejo das alterações causadas pelas condições subjacentes, prevenção da progressão da insônia primária para a secundária e melhora da qualidade de vida.

Tratamento da Insônia Primária – primeira linha de tratamento é não-farmacológico e consiste de intervenções cognitivo-comportamentais. Pode ser introduzida a farmacoterapia do sono — modalidade de tratamento mais comumente usada no Brasil, porém, estudos mostram que o benefício é de curto prazo.

Embora a higiene do sono, seja largamente difundida, é considerada terapia complementar e ainda não existem dados científicos comprovando uma eficácia duradoura.

Consiste basicamente de:
- eliminação de distrações ou outras influências
- quarto silencioso
- luz apagada
- eliminação de ruídos
- cama e roupas de dormir confortáveis

Insônia Secundária e Medicina Intervencionista da Dor

Na clínica da medicina intervencionista da dor, para tratar a insônia crônica persistente associada à dor crônica (geralmente quando o paciente chega a procurar um centro de dor já está instalada a insônia secundária), adotamos uma abordagem multifacetada baseada em evidências, com objetivo de melhorar a qualidade e quantidade do sono do paciente de dor crônica no curto e longo prazo.

Conheça na Parte 2, as intervenções utilizadas para tratar a insônia crônica secundária na tentativa de quebrar o ciclo vicioso. Não perca!

Referências:

http://www.ufrgs.br/psiquiatria/psiq/Diretrizes%20para%20Insonia%20final.pdf. Acessado em 28/09/2014.

http://www.aasmnet.org/Resources/clinicalguidelines/040515.pdf = http://bit.ly/10lKbID. Acessado em 29/09/2014.


QUANTO MAIS DOR, MAIS INSÔNIA OU QUANTO MAIS INSÔNIA, MAIS DOR?

12 set

QUANTO MAIS DOR, MAIS INSÔNIA OU QUANTO MAIS INSÔNIA, MAIS DOR?

Quem sofre de dores crônicas como dor na coluna, fibromialgia, osteoartrose, doenças reumáticas, entre outras, pode ver a quantidade e qualidade do seu sono diminuir, causando um impacto negativo sobre o corpo e a mente. E ainda, não conseguir pegar no sono logo que deita pode gerar ansiedade por não iniciar o sono.

O que acontece. A dor interrompe o sono, a privação do sono reduz a tolerância a dor, aumentando a sensação dolorosa, que piora o sono. A falta de sono pode levar à baixa imunidade, possivelmente resultando em inflamações, que também causam dor. O ciclo se torna vicioso.

Será necessário tratar a dor e a insônia. Mas, surge a dúvida, qual tratar primeiro? É a dor que faz começar a insônia ou vice versa? Como se pode intervir em um quadro assim?

Estudo da relação entre a dor músculo-esquelética e a insônia
Com o propósito de descobrir a ligação entre a dor músculo-esquelética e a insônia e qual deve ser o foco primário de tratamento e prevenção, a pesquisadora Nicole K.Y. Tang com sua equipe da Universidade de Warwick, Reino Unido, realizou um estudo com 6,676 pessoas com 50 anos ou mais para examinar a relação entre a dor e a insônia. Os achados foram publicados online no Oxford Journal of Rheumatology em 14/08/2014.

dor cronica causa insoniaEscolheram participantes que eram pacientes em clínicas médicas em North Staffordshire, uma região central do Reino Unido e lhes enviaram por correios questionários sobre dor e sono. Eles então analisaram suas respostas e três anos mais tarde repetiram o envio dos questionários, fazendo nova análise.

Questionário sobre dor – Para levantar os dados sobre dor, pediram às pessoas que estiveram ‘com dor’ de duração de 1 dia ou mais nas 4 semanas antes do preenchimento dos questionários que sombreassem a/s área/s dolorosa/s num desenho em branco da parte frontal e posterior do corpo humano. Quem sombreou ambos os lados do corpo, acima e abaixo da cintura, os ossos da cabeça, coluna ou costelas, foi classificado como tendo ‘dor generalizada’ e quem não sombreou todas as partes e não satisfez o critério para ‘dor generalizada’ foi categorizado como tendo ‘alguma dor’.

Questionário sobre sono – Com relação à qualidade do sono, o questionário pediu para o participante responder perguntas sobre os quatro componentes do sono nas 4 semanas antes do preenchimento do questionário: início, duração, consolidação ou qualidade. Foi avaliado se houve interrupção do componente em nenhuma noite, algumas noites ou a maioria das noites. Participantes que relataram dificuldades na maioria das noites foram excluídos da linha base já que o desenvolvimento da insônia após 3 anos foi considerado como sendo uma alteração de ter o sintoma em nenhuma noite ou alguma noite para a maioria das noites.

No início do estudo, em torno de 3,000 pessoas sentiram ‘alguma dor’, enquanto 1800 não sentiam ‘nenhuma dor’, e 1800 ‘dor generalizada’. No início também, a maioria das pessoas com cada tipo de dificuldade de sono tinha ‘dor generalizada’, menos tinham ‘alguma dor’ e poucos tinham ‘nenhuma dor’.

Follow-up 3 anos depois – Três anos mais tarde, o mesmo questionário foi enviado aos participantes iniciais e, ao comparar os questionários dos dois períodos, os pesquisadores observaram que os participantes que não sentiam ‘nenhuma dor’ no início e aqueles ‘com dor’ eram mais propensos a relatar piora na qualidade do sono.

Risco maior de ter insônia – E ainda mais significante, os indivíduos que no primeiro questionário assinalaram ‘dor generalizada’, eram duas vezes mais propensos a desenvolver insônia comparado com aqueles que não sentiam ‘nenhuma dor’. Em resumo, a probabilidade das pessoas ‘com dor’ desenvolverem a insônia era maior.

Obs.: Esta relação se manteve mesmo quando se considerou idade, gênero, classe econômica, formação acadêmica, ansiedade e depressão.

Atividade física e social – Ao pensar nos mediadores entre a dor e a insônia, ou seja, o que associava as duas, os pesquisadores, mediante as ferramentas de avaliação, SF-36 e KAP, viram que a redução nos níveis de atividade física e interações sociais eram bastante comuns em quadros de dor (embora não em todos os casos). Qual é a importância desses mediadores? Em procurar alvos para prevenção e intervenção, os pesquisadores descobriram que tanto a atividade física quanto a interação social eram mediadores nesta associação dor-insônia.

As duas atividades são importantes na promoção do sono, pois criam a pressão para o sono, além de proporcionar oportunidades de exposição à luz e estimulação mental, essenciais no regulamento do ritmo circadiano. Portanto, se a pessoa mais velha se mantém fisicamente e socialmente ativa, reduzirá seu risco de desenvolver uma insônia.

Tang e seus co-autores concluíram que as mudanças em estilo de vida que frequentemente acompanham a dor persistente têm impacto no sono, mas
indicam que mais estudos são necessários para descobrir como a presença da dor leva ao desenvolvimento da insônia. Além disso, enfatizaram que o tratamento
da insônia sozinho era apenas o tratamento de um sintoma, assim como o tratamento da dor sozinho.

Para o controle eficaz desta dupla, é necessário descobrir a condição causando a dor, tentar descobrir quando começou, quando piorou, quando melhorou para então decidir qual precursor tratar primeiro. O tratamento deve ser multidisciplinar e outras terapias devem ser tentados antes do uso de soníferos para a pessoa com dor ter uma boa noite de sono.

Próximo post: DOR CRÔNICA: QUEBRANDO O CICLO DA INSÔNIA. Não perca!

Talvez queira ler na íntegra o estudo referido no post:

“Impact of musculoskeletal pain on insomnia onset: a prospective cohort study”. Oxford Journal of Rheumatology. March 2014


MANEJO DA DOR PÓS-CIRURGIA PLÁSTICA

1 set

MANEJO DA DOR PÓS-CIRURGIA PLÁSTICA

A cirurgia plástica cresce em nosso país em grande escala e em 2013 ultrapassou os EUA em numero de cirurgias realizadas. Cosmética ou reconstrutiva, para uns uma escolha de estilo de vida enquanto para outros uma necessidade.

A cirurgia cosmética  traz benefícios de saúde para aqueles que se sentem insatisfeitos ou incomodados com sua aparência natural, ou com sua funcionalidade após um trauma. Insatisfação em grau mais acentuado pode contribuir para a depressão ou baixa auto-estima, impactando negativamente a qualidade de vida da pessoa.

Antes de considerar uma cirurgia plástica, todo paciente deve entender que os procedimentos têm os riscos gerais de toda cirurgia e que os efeitos pós-operatórios como sangramento, edema (inchaço) e hematomas poderão demorar semanas e até meses para diminuir e que estes poderão causar dor e complicações decorrentes. (mais…)


AS 5 LIÇÕES DO NOBEL DE MATEMÁTICA PARA FISIOTERAPEUTAS

14 ago

AS 5 LIÇÕES DO NOBEL DE MATEMÁTICA PARA FISIOTERAPEUTAS

Trabalho com o Rodrigo Vasconcelos desde que abrimos o Singular em 2009. Rodrigo dedica um dia de sua semana conosco no Singular e os demais no Instituto Wilson Mello. Ao longo desses anos pude ver quão dedicado é à fisioterapia, principal motivo pelo qual se tornou um líder e referência para seus colegas, angariando admiração e respeito de toda comunidade médica. Atualmente trabalha em seu pós-doutorado e orienta futuros mestres. Com essa bagagem, com propriedade, traz-nos reflexões sobre sua profissão, postadas em seu facebook. Com sua permissão, reproduzo aqui.

AS 5 LICÕES DO NOBEL DE MATEMÁTICA PARA FISIOTERAPEUTAS
texto de Rodrigo Vasconcelos

Sempre é importante observarmos exemplos de “Outliers” ou seja pessoas fora da curva em suas funções ou profissões para motivarmos a alcançar objetivos. Fiquei muito feliz com a vitória deste jovem rapaz Artur Ávila e lendo suas matérias fiz uma breve reflexão do que tirar da História magnífica deste rapaz para nossa profissão. (mais…)